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Desde março do ano passado eu ouço sempre umas mesmas perguntas. Desde fevereiro deste ano então, vixe. E eu nem me importo de responder sempre estas mesmas perguntas, acho que entendo isso. Uma delas é a se eu não tenho medo de avião e eu nem tenho. Aliás, esta é a pergunta mais imbecil que se poderia fazer pra mim, porque se eu tivesse eu jamais me disporia a usá-lo tanto. Mas eu acredito no direito das pessoas de fazer perguntas imbecis de vez em quando. Até as inteligentes. Eu também tenho minhas perguntas imbecis, então acho que é mais ou menos humano fazê-las.
E ainda que aconteça algo comigo, bem, eu acho que a vida é feita pra ser morrida. Tem gente que morre com 90 anos e tem gente que morre com 20. Teve quem morreu com 15, gente que morreu com 5 e teve gente que nem nasceu e se confundiu com a ordem das coisas. As coisas são assim, gostando ou não. É aquela coisa do oh, eu não vou beber para viver mais. Acho que fígado é feito pra gastar mesmo, o corpo todo é e se você ficar economizando ele pra sempre, nunca vai entender tudo o que ele é capaz de fazer. Nada contra viver uma vida saudável, eu mesmo ando pensando em maneirar em certas coisas. Mas faça isto sem fazer aquela cara de nojinho quando eu estiver tomando meu álcool Zulu com Tang sabor laranja com acerola. Ou aquele comentário escroto em dia de velório: "também: fumava 3 maços por dia e fazia sauna com o escapamento do carro... deu nisso". Meio comentário de tia velha.
Enfim! Existe uma outra coisa que é o que eu sempre falo: aviões são muito mais seguros do que a gente pensa. Nada acontece por pouca coisa, é sempre uma seqüência de procedimentos que deram errado. O acidente da Gol com o Legacy é o melhor exemplo disto: a cagada fundamental foi o tiozinho ter esquecido o famoso transponder desligado. Mas olha quanta coisa teve que falhar além disto, o lance dos controladores de vôo, a troca de turno, a informação mal repassada tanto entre os controladores quanto entre o CINDACTA e as aeronaves: existia muita coisa para tentar assegurar a possibilidade do transponder de uma das aeronaves estar desligado. Mas quando acontece um acidente destes, ninguém nem tenta entender isto, o funcionamento do acidente. A gente gosta mais é de ver família chorando e dizendo que o Brasil é um país de merda. A gente se dói com estas coisas, o sensacionalismo e o Cesar Tralli subindo meteoricamente no jornalismo da Globo. Não desconsiderando a dor das famílias, de forma alguma. E muito menos querendo tirar a responsabilidade e a necessidade de fazer os responsáveis arcarem com a justiça. Mas, olha, eu garanto que os pilotos do Legacy não acordaram de manhã dizendo um para o outro ei, tive uma idéia: que tal a gente derrubar um boeing no meio do mato hoje? ninguém vai nem notar, um madereiro ou outro no máximo. O acidente da Tam, a mesma coisa, mas não da pra falar muito sobre ele porque não existe ainda nada 100% conclusivo: a aeronave entendeu que uma das manetes estava em posição de aceleração, mas eu duvido que pilotos com milhares de horas de vôo tivessem simplesmente acelerado um dos motores para pousar.
O que me irrita mesmo nestas coisas é o sensacionalismo. Sempre tão exagerado. Claro que é tudo muito trágico e o impacto de tanta gente morrer numa tacada só é enorme, comove a gente, inclusive eu, posso garantir. Mas medo eu não tenho não. Como disse um amigo meu outro dia, é tão raro acontecer algo assim que, quando acontece, vira capa de jornal na hora. Além do mais, na hora de atravessar uma rua, um caminhão com pneu careca e sem freio pode estar vindo ladeira abaixo. "Ou até, quem sabe, Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio".
Escrito por Klein às
13h34
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Vamos lá, deixa eu fazer um pouco de justiça. Só pra variar um pouquinho. Que eu fico sacaneando que a mulher que aluga o quartinho aqui é a crente louca, mas na verdade ela é muito legal comigo. Ela é muito legal e eu fico por aí insistindo: crente louca. Toda vez que eu a encontro, ela fica toda preocupada comigo. A cada cinco minutos ela repete coisas do tipo se você estiver incomodado com qualquer coisa, você fala, tá? E acha que tudo vai incomodar e pergunta de novo e de novo e de novo. Quando cansa, entra em outro loop: no do é pra você ficar bem à vontade aí.
- Dona Crente Louca, eu to usando aquela geladeira desligada como dispensa pra guardar as minhas coisas, tá?
- Ah, claro, FICA À VONTADE.
Ela gosta mesmo de mim. Ainda que eu seja um infiel que tem um blog sobre seu sonho de comer todas as mulheres da face da Terra. E que use o mesmo para chamá-la secretamente de crente louca.
Ontem teve a tal reunião semanal*. Eu assustei um pouco porque achei que seria sexta e, de repente. abriram a porta. Era ela e sua tropa crente. Bate-papo de lá, de cá, como ta a vida, o trabalho, e quando é que eu vou pagar ela, e acho que é amanhã, passa aqui às duas para receber, essas coisas. E ela pergunta:
- Quer participar da reunião?
- Não, obrigado, dona Crente Louca! Eu vou ficar lá no meu quarto lendo meu livro.
Pura mentira: eu subi aqui e fiquei praticando minha falta de fé. Roubando wi-fi do vizinho pra conversar com a Cris, aquela, que é do Rio, mas que não é a Xianey, tirando sarro que a crente louca é muito louca e, conseqüentemente, pavimentando minha estrada para o inferno. Pura maldade minha: ela me trata bem e não tentou me converter. Ainda. Não com convicção. Enfim: o caso pe que ela me trata muito bem e eu fico de maldades com ela. Coisa de gente que sentiu prazer pisando em formiga quando criança, eu penso. E aí eu não sei por que é que eu tenho que ter o coração tão preto e peludo: deixa ela citar Deus a cada meio minuto, mesmo enquanto dorme, se é assim que ela é feliz e acha que sua vida faz sentido. O que é que eu tenho a ver com isso?
A verdade é que ter preconceito contra evangélico é tão feio quanto ter preconceito contra negros e gays. E aí tem aquela galera que acha cool andar entre gays e entre negros, mas ninguém acha muito cool andar com evangélico. Cool é sacanear evangélico. Ninguém aguenta eles falando de Deus a cada meio minuto, ou eu pelo menos não aguento. Mas 90% das militâncias praticadas no mundo eu acho irritantes, então é melhor deixar tudo meio pra lá. Os negros tem uma vantagem: o papo é o da injustiça social, mas nenhum deles tenta te tornar negro. E olha que um cara tão branquelo quanto eu se tornar negro seria a maior vitória do movimento deles. Gays também não, em geral, mas eu tenho o meu histórico dos que quiseram muito mesmo que eu me tornasse. Fé em Deus ninguém realmente tentou que eu tivesse, até onde me lembro. Talvez porque, sempre que falam de Deus comigo, eu faço a minha já consagrada cara de quem não sabe como algumas pessoas colocam miniaturas de navios dentro de garradas.
* - Era duas vezes por semana. Passou a ser só uma, toda quinta-feira.
Escrito por Klein às
16h37
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