Eu digo: Eu era muito esquisito de óculos Eu digo: E to perigando de voltar a usar. Já to míope pra caralho em uma das vistas Ela diz: EU tb... mas to vendo algum com uma armação menos séria, pq eu, com armação preta, fico a encarnação definitiva na nerdice Eu digo: Mas é meio cool ter cara de nerd, vc sabe, né? Ela diz: ah, não... quero ter cara de descolada Eu digo: Bom, eu já desisti de parecer descolado. Eu sei que eu não sou Eu digo: Além do mais, é uma pose que não cola comigo: a gente meio que se conhece por causa dos amigos da internet. Então, descolado, a gente não é Ela diz: HAHAHAHAHHAHAHAHAHA Ela diz: mas ninguém precisa saber disso. A gente pode inventar uma historia Eu digo: Ta bom. A gente tava na BALADA, eu MANDEI UMA IDÉIA pra você e a gente se beijou. Beleza? Ela diz: Não Ela diz: horrivel Ela diz: a gente estava naquele evento do Odeon... qual o nome mesmo? Passa filme a madrugada inteira... Eu digo: Nossa, em maratona de cinema? Isso é coisa de nerd! Ta vendo como a gente não consegue parecer descolado? Ela diz: Hahahahahahahahahaahahahahahahha Ela diz: merda Ela diz: Tá, então somos nerds mesmo. E o que a gente faz com isso? Eu digo: Compramos nossos óculos com aro preto e passamos a noite de sábado jogando RPG. O que mais? Ela diz: RPG jamais Eu digo: O pior é isso: existem vários tipos de nerd Ela diz: É É? Eu digo: Tipo: eu realmente acho que sou nerd, mas não do tipo de que joga RPG Ela diz: Isso aí é nerd demais ... nunca nem me aproximei de um rpg... nós, entre os nerds, somos descolados Ela diz: Eu uso até all star de oncinha. Eu digo: Eu joguei RPG uma ou duas vezes quando era moleque. Tipo uns 14 anos, acho. Eu digo: RPG é que nem Los Hermanos Eu digo: Até que é legal... o problema não é o RPG ou o Los Hermanos. Eu digo: O problema são as pessoas que gostam destas coisas
Tenho certeza de que é para isto que as pessoas tomam sol. E pintam o cabelo de preto. É para poder ir a Salvador. Porque eu, nórdico, loiro e branquelo, não escaparia impune às ruas do centro histórico de Salvador. E eu fico pensando que, às vezes, também é duro ser branco neste país*. E a gente pensa em como não fazer cara de turista neste tipo de condição e não acha uma solução. Talvez se eu passasse betume na minha cara, fizesse tererê e botasse camiseta do Olodum, mas não quis tentar. Enfim, a afirmação que está em jogo neste parágrafo é só a seguinte: em nenhum outro lugar do mundo eu fui tão perturbado quanto nas ruas do centro histórico de Salvador.
Quando você chega lá e nestas condições, a primeira sensação é de estar participando de uma corrida de Fórmula 1. Salvador seria o Pit Lane. Se você encosta o seu carro no Pit Lane, antes que você sequer perceba, alguém vai abastecer teu carro e trocar os 4 pneus antes de você ter tempo de se perguntar se é mais fácil uma cegonha te trazer um bebê ou você simplesmente procurar por um dentro de um pé de repolho. No centro histórico de Salvador é igualzinho: antes de você perceber, alguém já amarrou uma fitinha do Senhor do Bonfim no seu braço e colocou um pingente de gosto duvidoso (com um berimbau, anjinho ou algum símbolo indecifrável) em volta de seu pescoço. Também na Fórmula 1, você ouve pelo rádio quantas voltas faltam ou a diferença de tempo para você alcançar o próximo carro e, para isto, também existe um paralelo nas ruas de Salvador: alguém falando insistentemente sobre o quanto o baiano é gente boa.
(E isto de alguém precisar dizer tantas vezes o quanto é gente boa é mais ou menos como a mulher que diz o quanto é liberal. O quanto é boa de cama e o quanto gosta de trepar. São as que geralmente tem muita destreza para fazer crochê assistindo novela e só para isto mesmo.)
Eu estava na parte de cima do elevador Lacerda. Só naquela coisa contemplativa de oh, a vista, o mar. Aí colou esse baiano gente boa em mim e, depois de explicar o quanto ele era gente boa e colocar todos os penducaralhos que ele tinha em mim, perguntou se eu era paulista ou carioca. Expliquei para ele que eu era paulista *PORÉM* pobre. Tentando trabalhar na lógica dele.
- Então faz um pedido pelo Corinthians! - disse amarrando uma fitinha do Senhor do Bonfim no meu pulso.
Fiz um pedido pela mãe dele. Depois disse que ia ajudá-lo (sic) e dei R$ 1,00 para ele me deixar em paz.
Deu certo. Por uns 2 minutos. Quando outro baiano gente boa colou em mim. E com todo o seu papo sobre que prédio ali foi o que na história do Brasil, perguntando se eu era paulista ou carioca, amarrando todos os seus penducaralhos em mim e, claro, ressaltando o quanto o baiano gente boa era gente boa. Tudo o que eu pensei é que tinha esquecido de passar o meu repelente de seres humanos: tudo o que eu queria era andar. Sozinho. Carreira solo. Músicos contratados. Nenhum deles do Olodum, inclusive. Quis convencer ele a me deixar em paz, quis dizer a ele que eu não escovava os dentes, que tinha frieiras por todo o corpo e que antes de sair de casa eu sempre esfregava merda de baixo do suvaco. Que eu era este tipo de gente. Então não merecia conhecer as maravilhas do centro histórico de Salvador. Não mereceria nem as maravilhas do Capão Redondo, se fosse o caso. Mas nada disto faria eu parecer mais desagradável do que ele mesmo já era, então nem falei nada disso. Me mantive só no argumento de que não tinha dinheiro mas, diferente do baiano gente boa anterior, este aí não se intmidou muito com o meu voto de pobreza.
Tive que deixar ele me levar para onde ele queria, não teve muito jeito. E o cara vomitando para mim um monte de informações sobre as quais eu não estava interessado sobre todos os lugares por onde andávamos. Achei que alguma hora eu fosse me interessar: de repente ele diria qualquer coisa que envolvesse mulher pelada. Mas não rolou. E eu não absorvi muita coisa do meu intrépido guia turístico. A única coisa que eu lembro foi dele me dizer uma ou duas vezes quando estávamos já no pelourinho:
"- Foi aqui que gravaram Gabriela Cravo e Canela, que Lázaro Ramos compô o Paió e que Michael Jackson gravou o clipe dele.
Ah, o Michael Jackson. Que escreveu algo na história de Salvador. O típico cidadão baiano, um acarajé em forma de gente. Eu diria: mais um baiano gente boa.
Dei uns trocado pra esse puto, arranquei todos os penducaralhos do meu corpo e fui correndo de volta pro hotel jurando que nunca mais voltava ali sozinho. Assim, puto da cara mesmo.
* - Ninguém aqui vai vir com aquele papinho politicamente correto encher o meu saco por dizer coisas escrotas e preconceituosas no meu blog, vai?
Olá, eu sou o Klein e fisicamente pareço um príncipe
germânico. Blá blá blá. Todo mundo já
está de saco cheio deste papo de príncipe germânico,
vamos ser honestos, mas é a piada besta que acompanha este blog
desde que eu o tenho e é sempre disto que todo mundo lembra. Mas
na verdade esse negócio de príncipe é papo pra bundão.
O único príncipe brasileiro respeitável foi, a meu
ver, o Ronnie Von. Que não parece muito germânico. E também
não se parece muito comigo. De qualquer forma, hoje ele apresenta
um programa para donas de casa que ocupam suas tardes fazendo pirulitos
de chocolate para vender na vizinhança.
Não está nos meus planos apresentar um programa de auditório
para donas de casa. Nem estou renegando uma eventual realeza: só
estou explicando que esta coisa de príncipe germânico não
é necessariamente boa, mas eu não ousaria fazer um perfil
no meu blog que não citasse esta piadinha besta tão tradicional
por aqui. Mas acho que ultimamente estou mais para o outro cabeludo que
vai aparecer na sua rua do que para príncipe germânico.
De qualquer forma, sejam bem vindos ao meu blog. Se você é
o tipo de pessoa que gosta de ler qualquer tralha por aí, então
deu certo porque eu escrevo textos no estilo qualquer tralha. Se você
é o tipo de pessoa que apresenta programas de auditório
para donas de casa ou o tipo de pessoa que vende pirulitos de chocolate
para os vizinhos, saiba que não é nada pessoal. Por fim,
se você for o Ronnie Von, o Eduardo Araújo ou um dos irmãos
da família Carlos, oh, quanta honra vocês por aqui!