Na verdade a depressão nunca deixou de ser um tabu pra mim. Não do tipo que eu não consigo falar com alguém sobre isso: quando alguém pergunta ou o assunto surge, falo como se fosse alguma coisa que eu tivesse visto, e nunca vivido. Até porque eu vi bastante, além de ter vivido. Como eu dizia na época, você não apenas adquire uma doença da moda, porque como toda moda, aderir a ela te faz pertencer a um clube. Lembro nas primeiras semanas deste diálogo: fulana aparece no MSN e eu gostava muito de fulana, gostava de gostar de amiga, apesar de que eu teria comido ela se ela quisesse, mas ninguém fez essa parte direito, então a gente gostava como amigos, mas não existia intimidade, eu só desembuchei porque naquele momento estava tão bolado que eu teria desabafado com qualquer pessoa, eventualmente para um mendigo aleatório na rua, ou para o seu cachorro cheio de moscas voando em volta do rabo:
- Puxa, fulana, estou com depressão, que vida, bla bla bla.
Pelo MSN isso.
- Oh, Klein, que merda. Eu também sou toda fodida, sabe? E beltrano é todo fodido também. Aí sabe sicrano? Aquele que parece um palhaço? Nos momentos em que está sozinho em casa, ele também chora sem saber o porquê. Sabe o que? Vamos sair para encher a cara e aí eu te conto uns troços sobre isso!
- Ah, eu não posso, fulana, o doutôr disse que não posso beber tomando remédio!
- Eu sou toda fodida, você sabe disso, e ainda assim você não me viu muito sóbria nessa vida. Vamos lá, porra!
O porre beirou uma celebração mesmo. Porque eu estava entrando no clube, fazendo piadas e bolando camisetas. Eu pensava numas coisas por exemplo: Mary Poppins voando com seu guarda-chuva cafona e uma fonte bem rococó dizendo "Fluoxetina". A gente tende a colocar o clube e os remédios nessa posição superior mesmo, remédio é Deus, ta lá no pedestal mais alto que tem e a gente se pensa quase como uma raça superior mesmo. Um comportamento patético ou melancólico, escolha você porque cada dia eu revezo os dois adjetivos sem saber qual realmente orna.
Você quis saber qual foi o motivo. Eu não sei o motivo, não com precisão. Tenho idéias só e acho que você viu eu transformando estas idéias ao longo do tempo. As pessoas falam que é químico, mas isso é muito simplista e seria afirmar que o remédio resolve. O remédio não resolve. O psicólogo leva ao químico: aquele tal de Platão tava muito errado quando quis separar o corpo da mente e a gente vive pensando assim até hoje. Robervaldo Cristiano não quer saber de mim, ele só quer saber do meu corpo! Tenho uma péssima notícia para você, Mariela Cristina: você É o seu corpo também, é tudo uma coisa só. Eu poderia falar de frustração profissional e poderia falar sobre o relacionamento mais errado da história dos relacionamentos, mas é muito razo pensar desse jeito: eu tenho mesmo é que saber por que eu fui na direção destas coisas. Ou saber por que, uma vez lá, teria me faltado estrutura emocional para ficar meramente triste (já que eu definitivamente não sou a única pessoa no mundo a passar por estas coisas). E é aí que está o tabu: eu tenho idéias a respeito deste por quê, mas não sei se consigo falar muito bem sobre eles. Eu não consigo nem pensar muito bem a respeito. Eu podia ter feito análise ou terapia. Fiz terapia, o que quer dizer que eu enterrei o problema e tomei cuidado para não ficar andando sobre o cemitério ou praticando magia negra. Fui andar no parque, no show de metal, no puteiro, nestes lugares.
E eventualmente eu rezo um pouquinho pelos mortos porque eles tiveram um papel marcante na minha vida. Dizer isso é continuar colocando eles em um pedestal, eu concordo. Até por isso eu evito rezar em voz alta, não quero que as pessoas achem que eu penso nisso como uma epifania religiosa, a resolução de alguma questão existencial. Porque hoje eu sei que não existe nada de bonito naquele clubinho: tomei um porre e estreitei uma amizade para celebrar uma doença naquela noite. Acho que existem motivos melhores para as pessoas se unirem. Mas não da para negar que eu hoje penso isso e aquilo porque, um dia, eu estive no meio do clubinho. Não é um caminho único, foi só o meu tipo de caminho torto mesmo e que hoje está bem para trás. Antes era um tabu porque não era uma coisa superada. Hoje é um tabu porque eu não quero passar por nada disso de novo.
Eu sempre ensaiei mentalmente textos sobre essa fase da minha vida. Sempre achei errado escrever sobre isso aqui. Justificava dizendo que não combina com este blog. Mas também é por causa disso aí: para mim é um tabu pensar demais nisso.
Olá, eu sou o Klein e fisicamente pareço um príncipe
germânico. Blá blá blá. Todo mundo já
está de saco cheio deste papo de príncipe germânico,
vamos ser honestos, mas é a piada besta que acompanha este blog
desde que eu o tenho e é sempre disto que todo mundo lembra. Mas
na verdade esse negócio de príncipe é papo pra bundão.
O único príncipe brasileiro respeitável foi, a meu
ver, o Ronnie Von. Que não parece muito germânico. E também
não se parece muito comigo. De qualquer forma, hoje ele apresenta
um programa para donas de casa que ocupam suas tardes fazendo pirulitos
de chocolate para vender na vizinhança.
Não está nos meus planos apresentar um programa de auditório
para donas de casa. Nem estou renegando uma eventual realeza: só
estou explicando que esta coisa de príncipe germânico não
é necessariamente boa, mas eu não ousaria fazer um perfil
no meu blog que não citasse esta piadinha besta tão tradicional
por aqui. Mas acho que ultimamente estou mais para o outro cabeludo que
vai aparecer na sua rua do que para príncipe germânico.
De qualquer forma, sejam bem vindos ao meu blog. Se você é
o tipo de pessoa que gosta de ler qualquer tralha por aí, então
deu certo porque eu escrevo textos no estilo qualquer tralha. Se você
é o tipo de pessoa que apresenta programas de auditório
para donas de casa ou o tipo de pessoa que vende pirulitos de chocolate
para os vizinhos, saiba que não é nada pessoal. Por fim,
se você for o Ronnie Von, o Eduardo Araújo ou um dos irmãos
da família Carlos, oh, quanta honra vocês por aqui!