Acordei em Palmas. Aconteceu comigo. Pode acontecer contigo. Tem gente que acorda dentro de uma banheira de gelo, com uma cicatriz enorme em qualquer parte do tronco e um rim a menos. Já eu, acordo em Palmas. Você tem que pensar em Palmas como aquela ilustração que tem o macaco, o neandertal e o homo sapiens. Na ordem inversa você vai ter Brasília, Cidade Universitária da USP e, só aí, Palmas. Não é um paralelo entre Palmas e macacos, pelo amor de Deus: o caso é que eu costumava dizer que Brasília era o lugar mais desolador que eu conhecia: tudo está espalhado, nada é suficientemente alto para explicar o quão espalhadas estão as coisas. A vista alcança tudo, mas ela nunca alcança nada não. A Cidade Universitária da USP é uma involução disto: é ainda mais espalhado, tem ainda menos alturas e da ainda mais solidão. E aí: Palmas. Acho que é coisa de cidade planejada. Para Palmas eu não sei o que planejaram. Acho que planejaram calor e tédio, esta parte eu entendi - e posso dizer que vivi a cidade intensamente.
"Quantos habitantes tem Palmas?" perguntou uma amiga. Dois. Os dois que trabalhavam na recepção do hotel. "Eles se revezam na recepção: enquanto um faz check-ins e entrega chaves de quartos, o outro governa a cidade. Querida Palmas. Palmas pra que te quero! Uma terra tão garrida. Ou uma terra sem McDonald's: me contaram que tinha um shopping por ali e eu fui. O shopping não era bem um shopping, era um quadrado com lojas em volta. Depois vinha o segundo andar: outra camada de quadrado com lojas em volta. Cadê o McDonald's? Não tem! Mas tem sorveteria. E tem Bradesco, tem sim senhor. E tem pessoas que vão lá para andar em círculo no shopping. Acho que meninas no horário e meninos no anti-horário. Não é um shopping: é a pracinha central, na versão coberta e de dois andares. Comprei um milk shake e fiquei olhando o movimento das pessoas: e não é que tem gente bonita? Ou eu perdi a noção do que é beleza. Eventualmente perdi a noção do que é gente. Mas pareceu possível descolar alguma ereção, não uma a cada esquina como em Curitiba, a TERRA DA EREÇÃO, só alguma mesmo, o que eu acho suficientemente digno.
Resolvi voltar para o hotel e recontar os azulejos do banheiro para passar o tempo, pareceu boa idéia. "Amigo, você sabe onde fica o bar 'nome do boteco'?" Não sei não. Não sou daqui, foi mal! Beleza. Sou só mais um forasteiro que vai voltar para casa avacalhando a tua terra, boa noite. Pensei, não disse.
Agora falando sério: não é uma questão aqui de falar mal de Brasília ou de Palmas. Ou da Cidade Universitária. Não são lugares que eu desgosto. Mas são lugares onde realmente eu sinto um tipo de agonia e que tem muito a ver com essa arquitetura planejada da cidade... a coisa espalhada, o espaço vazio, duelando com uma grandiosidade quase subliminar. Não é grande e não é vazio, mas é os dois. Não me lembro de sentir isso em nenhum outro lugar que eu estive. E eu estive em muitos lugares.
Olá, eu sou o Klein e fisicamente pareço um príncipe
germânico. Blá blá blá. Todo mundo já
está de saco cheio deste papo de príncipe germânico,
vamos ser honestos, mas é a piada besta que acompanha este blog
desde que eu o tenho e é sempre disto que todo mundo lembra. Mas
na verdade esse negócio de príncipe é papo pra bundão.
O único príncipe brasileiro respeitável foi, a meu
ver, o Ronnie Von. Que não parece muito germânico. E também
não se parece muito comigo. De qualquer forma, hoje ele apresenta
um programa para donas de casa que ocupam suas tardes fazendo pirulitos
de chocolate para vender na vizinhança.
Não está nos meus planos apresentar um programa de auditório
para donas de casa. Nem estou renegando uma eventual realeza: só
estou explicando que esta coisa de príncipe germânico não
é necessariamente boa, mas eu não ousaria fazer um perfil
no meu blog que não citasse esta piadinha besta tão tradicional
por aqui. Mas acho que ultimamente estou mais para o outro cabeludo que
vai aparecer na sua rua do que para príncipe germânico.
De qualquer forma, sejam bem vindos ao meu blog. Se você é
o tipo de pessoa que gosta de ler qualquer tralha por aí, então
deu certo porque eu escrevo textos no estilo qualquer tralha. Se você
é o tipo de pessoa que apresenta programas de auditório
para donas de casa ou o tipo de pessoa que vende pirulitos de chocolate
para os vizinhos, saiba que não é nada pessoal. Por fim,
se você for o Ronnie Von, o Eduardo Araújo ou um dos irmãos
da família Carlos, oh, quanta honra vocês por aqui!