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Sansão e seus cabelos
Não é verdade que na vida toda eu tive 3 namoradas. Na verdade eu tive 5 namoradas. O caso é que as duas pimeiras duraram algo tipo um mês. As seguintes duraram bem mais: 6 meses a primeira, 9 a segunda e outros 6 a terceira. E aí você pode falar que um cara que não consegue estabelecer um relacionamento duradouro não pode ser uma boa muito suportável.
Em minha defesa... em minha defesa eu não tenho nada a declarar. No entanto eu posso fazer a coisa parecer pior: eu conto, por exemplo, 6 meses, incluindo aquele tempo que as pessoas saem e ainda não chamam de namoro, não é oficial, você não disse "quer namorar comigo e coçar minhas frieiras nas noites de sábado" e ela não respondeu "claro, eu adoro frieira". Mas eu tenho tenho todo o direito de contar esse tempo como parte integrante dos meus namoros: os casinhos que prescederam estes namoros já tinham cara de namoro desde cedo, muito antes de toda essa coisa de frieira. Em no máximo duas semanas eu já estava conhecendo os pais maniaco depressivos, as mães estelionatárias e os irmãos interceptadores de mercadoria roubada e fazendo programas tipo assistir filme ruim estirado no sofá da sala da casa delas.
Mas voltando ao assunto das 5 namoradas, o mais impressionante mesmo não é eu ter tido tantos (sic) namoros nesta vida. O impressionante mesmo é que eu já dei um pé na bunda de uma namorada. Na primeira, ainda por cima. O que é bem coerente considerando que foi um namoro insólito: conheci ela no colegial, logo que mudei para a escola de formação de japoneses (um erro na minha vida: nunca consegui me tornar um japonês... dizem que você precisa nascer no japão para conseguir isto). Aí eu conheci essa menina, que nem vou entrar no mérito de descrever, mas é o tipo de pessoa que quis namorar comigo naquela época
Por naquela época vocês devem entender duas coisas. A primeira é que eu tinha cara de criança, era tão pálido quanto sou hoje, aquela cara de nada. A segunda é que eu tinha cabelo comprido. O cabelo comprido era para ser metaleiro, para parecer o tipo de pessoa que mata um bode com os próprios dentes todos os dias na hora do jantar, mas como eu tinha a cara de criança, na verdade eu parecia mesmo uma menina. E uma menina nada metaleira, visto que nunca usei camisetas de banda. Aí vocês pensam que eu namorava com uma menina que namorava um cara que parecia uma menina. E quem deu o fora, ainda assim, fui eu.
Não lembro por que exatamente eu dei o fora nela. Também não lembro por que eu namorei ela em primeiro lugar. Acho que eu não queria ter que ficar até mais tarde na escola para namorar. Ficava preocupado com o trânsito ou simplesmente com preguiça de não estar em casa dormindo no meu quarto. Depois disso eu precisei parar de parecer uma menina para namorar de novo: cortar o cabelo foi a melhor coisa que 4 anos de faculdade de propaganda e marketing me proporcionaram. Mas depois disso eu sempre levei pé na bunda, então continuo não entendendo a relação entre as coisas na minha busca incansável pela fórmula do relacionamento afetivo perfeito.
Eu parecia uma menina. Eu sabia disso. Uma vez, neste curto namoro, eu tava dando uns beijos na minha namorada e eu ouvi algo como "olha, duas meninas se beijando". Ela não se importava mesmo com isso, o que me leva a afirmar assertivamente que ninguém jamais me amou como essa menina.
Escrito por Klein às
21h14
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Pequenas doses para dores diárias 
Não é a primeira vez que eu tenho texto publicado em algum livro, na verdade: uma vez eu tava na escola, 7a, 8a série, qualquer coisa do gênero, e a gente tinha que entregar um poema. Lição de casa. A professora pediu para a gente passar a limpo e entregar para ela. Perguntei o que aconteceria com quem não entregasse e ela disse que tiraria zero. Caralho, pra nota ainda por cima, né? Então escrevi um punhado dos versos mais cafonas que eu pude e entreguei. Na outra semana ela entregou tudo corrigido - porque eu estudei nesse tipo de escola, que corrige poemas - e anunciou para todos que eu tirei um milagroso 10. Depois disso ela escolheu o meu poema para entrar numa antologia de textos da escola: tinha escrito o pior poema de todos os tempos e, ainda assim, ele estava entre os 40 ou 50 melhores poemas escritos pelos alunos da 8a série naquele ano, o que me leva a crer que só eu e outro 39 ou 49 idiotas achamos que realmente seria importante não tirar zero num poema.
Esse aí foi legal, fez parte daquele site, o Morfina, que não existe mais. Um grupo entusiasmado de gente que gostava de escrever e, de repente, não estava mais tão entusiasmado assim. O site morreu. Mas antes dele morrer, um dos colaboradores, que é produtor cultural, sugeriu que entrássemos em uma concorrência pública de projetos literários. Passamos e aí está o fruto desta brincadeira. Tem dois textos meus neste livro (eu sugeri uns 5 e escolheram 2 que acharam melhor), ambos no capítolo "amor". Ironico pra quem considera que não entende mais absolutamente nada sobre o assunto e que meio que nem liga. São todos textos que já passaram por aqui. Achei que ia entrar aquele texto sobre como eu e a Bia começamos a namorar, fez muito sucesso na época porque eu falava qualquer coisa sobre o cupido enfiar dedo no cu de quem se apaixona. Todo mundo adora texto que menciona sexo anal. Não entrou. Entrou um sobre minha sobrinha metida e um sobre o que estou achando que é o meu devaneio mais homem heterossexual que já coloquei na forma de um texto nessa vida. Fala sobre peitos, bundas e a vontade de comer todo mundo, em resumo.
Quando o projeto tava pra rolar, esse carinha produtor cultural, me chamou de canto durante um churrasco para conversar. Ele queria que eu entrasse em paralelo com algo que seria um livro só meu. Era um churrasco e ele queria me convencer a ser escritor. Enquanto eu acreditava que churrasco era uma ocasião para comer carne e beber cerveja. Aí eu mandei uns textos lá e eu quase passei na mesma concorrência. Ainda bem que não deu certo, não sou escritor. Eu tenho um blog, é bem diferente. E até que escrevo direitinho, gosto do meu jeito de escrever, mas longe de ser objeto de um livro, o que seria um esforço menos divertido que comer carne e beber cerveja. E eu não me pareço com um escritor: escritores tem vidas interessantes, são perturbados, não entendem o mundo e eventualmente se suicidam em algum momento da vida. Eu não, eu sou certinho. Eu durmo de meias porque tenho frio nos pés. E tenho um emprego com carteira de trabalho assinada, aquela azulzinha: um escritor de verdade jamais saberia a cor de uma carteira de trabalho, ele passaria muito tempo de sua vida ocupado fazendo algo do tipo beber até morrer por um amor não correspondido, o que não lhe daria tempo de pensar em algo do tipo "qual a cor da carteira de trabalho".
Ainda assim, entreguei meus textos para o cara. Ele não me deixaria comer carne e beber cerveja se eu não dissesse que daria. Acabou não dando em nada, evidentemente.
A pergunta vai ser sempre a mesma: se agora que eu sou um blogueiro que tem textos publicados em um livro de verdade, eu vou começar a ser chamado para aquelas festas de gente de internet que são cheias de comida e de mulher gostosa. Tipo o Campus Party, onde deve rolar muita droga e venda ilegal de armas também. Acho que não, eu não tenho esse tipo de prestígio, o que é bem merecido.
O capítulo - não bem um capítulo, uma seção, vai! - "Amor" é o maior do livro, o que mais tem textos. Ou está em segundo lugar: disputa pau a pau com o capítulo "non sense". Vejam que adequado.
O Morfina, o site, nasceu de um blog homônimo. É um dos meus blogs favoritos de todos os tempos, não to falando isso porque a Vanessa, a autora, é minha amiga. Ele era foda mesmo.
Escrito por Klein às
12h19
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