Não é que eu tenha vergonha do meu trabalho. Isto eu definitivamente não tenho. Também não é meramente uma questão de ter problemas com ser visitado no trabalho. Em outros empregos que eu tive, aqueles ditos normais, das 09:00 às 18:00, camisa social, catraca na entrada, recepcionista com cara de puta pobre, cafeína de cinco em cinco minutos para trabalhar menos e ouvir as fofocas da empresa, nestes aí eu já recebi visitas e era tranquilo. "Olha, essa aqui é minha mesa, nela tem o meu computador e nele você pode ver este monte de post-its colados onde em alguns anoto coisas que não posso esquecer de fazer hoje e em outros escrevo frases célebres de Inri Cristo". Nestes empregos normais a gente também compõe um personagem, mas é até um certo ponto, você ainda é você mesmo de alguma maneira. Quando eu trabalhava na fábrica, por exemplo, eu não escondia a minha cara de pau duro toda vez que a ruivona passava.
Mas neste tem algo diferente, esta coisa de montar um personagem é levada a níveis mais extremos. Por motivos bem óbvios: eu trabalho diretamente com o público e a firma espera de mim uma atitude formal para com os clientes. Não é um lugar onde eu comento que a recepcionista tem cara de puta pobre. "Puta" não faz parte do nosso vocabulário e, lá, "pobre" é "economicamente desfavorecido" ou merda do gênero. O fato de eu trabalhar de uniforme ajuda muito também porque ele vira uma chave de liga e desliga: você se sente outra pessoa, se condiciona a mudar a sua atitude assim que veste esse negócio. Você passa automaticamente para o módulo coxinha-educadinho-e-sexualmente-inativo e vira aquele doce de pessoa.
E acho que eu sou até mais ou menos bom nisso. Quer dizer, já fui elogiado por algumas pessoas, clientes e chefes. Na última semana elogiaram duas vezes a minha postura. "Parabéns pela postura". Usaram esta palavra, postura. Não se referem àquela postura que eu comumente tenho, a de exalar cheiro desagradável, grunhir ao invés de falar e de roer ossos em público, é a postura coxinha-educadinho-e-sexualmente-inativo. Uma coisa totalmente quem diria?* eu acho. Eu não queria ser astro do rock? Então, de certa forma, consegui minha banda, meu público e meu palco, vivo de fazer imagem.
Aí quando alguém me visita no trabalho, e isto aconteceu 3 vezes, eu me sinto desmascarado. Porque geralmente é alguém sabe que eu não sou este tipo de pessoa agradável. Me desoncentro um bocado, não sei o que fazer. Geralmente coloco a mão no bolso, onde deixo um osso de galinha que roí recentemente para não me esquecer de quem realmente sou, e aí uma lágrima emocionada escorre pelo meu rosto. Não quer dizer que eu não me divirta com isso. Me divirto pacas. Mas me desconcentro.
Este post é dedicado à Mulher Casada, em cuja casa já roí muitos ossos e que me desmascarou nesta última 5a feira.
* - não é para tanto: eu sempre soube fazer bem o papel de educadinho bonzinho e etc. Bem neste tipo de situação, vivência rápida sem intimidade ou expectativa de laços com pessoas. Uma coisa bom moço de ser, minha cara ajuda muito. Em geral, eu sou um hit entre mães de amigos. "Aquele menino, tão bonzinho, tão educado, como é que ele chama mesmo?", esse tipo de gente.
Olá, eu sou o Klein e fisicamente pareço um príncipe
germânico. Blá blá blá. Todo mundo já
está de saco cheio deste papo de príncipe germânico,
vamos ser honestos, mas é a piada besta que acompanha este blog
desde que eu o tenho e é sempre disto que todo mundo lembra. Mas
na verdade esse negócio de príncipe é papo pra bundão.
O único príncipe brasileiro respeitável foi, a meu
ver, o Ronnie Von. Que não parece muito germânico. E também
não se parece muito comigo. De qualquer forma, hoje ele apresenta
um programa para donas de casa que ocupam suas tardes fazendo pirulitos
de chocolate para vender na vizinhança.
Não está nos meus planos apresentar um programa de auditório
para donas de casa. Nem estou renegando uma eventual realeza: só
estou explicando que esta coisa de príncipe germânico não
é necessariamente boa, mas eu não ousaria fazer um perfil
no meu blog que não citasse esta piadinha besta tão tradicional
por aqui. Mas acho que ultimamente estou mais para o outro cabeludo que
vai aparecer na sua rua do que para príncipe germânico.
De qualquer forma, sejam bem vindos ao meu blog. Se você é
o tipo de pessoa que gosta de ler qualquer tralha por aí, então
deu certo porque eu escrevo textos no estilo qualquer tralha. Se você
é o tipo de pessoa que apresenta programas de auditório
para donas de casa ou o tipo de pessoa que vende pirulitos de chocolate
para os vizinhos, saiba que não é nada pessoal. Por fim,
se você for o Ronnie Von, o Eduardo Araújo ou um dos irmãos
da família Carlos, oh, quanta honra vocês por aqui!