Quer dizer, eu estou ali, tomando minha cerveja com esta figura que pode-se dizer que trabalha comigo, à noite naquele bar que eu gosto mais de dia, aquele, o da melhor coxinha do universo. E ela começa a tagalerar e choramingar sobre pessoas que tem oportunidades INCRÍVEIS no trabalho porque são puxa sacos dos patrões. E eu sinto a cerveja sair do sabor amargo e delicioso, passar pelo pelo carismático mas não ideal sabor azedo e chegar ao tenebroso sabor calcinha cor de pele. Porque choramingar sobre puxa sacos é algo tão 2006.
E não da para entender porque é que alguém efetivamente reclama das tais oportunidades. Não são oportunidades incríveis de verdade. Não existe pulo no plano de carreira e não existe aumento salarial em jogo. Apenas prestígio. Lá, prestígio te ajuda a não ser mandado pra rua quando rola facão, ou te ajuda a arrumar um cargo burocrático. Mas quem quer um cargo burocrático é porque já tem um dispositivo puxador de saco escondido dentro de si. Em algum lugar entre o intestino grosso e a uretra, provavelmente. Mas o caso é que onde eu trabalho, a não ser em casos extremos, fazer o seu trabalho bem feito é o suficiente para se manter com dignidade. Diferente de quando eu trabalhava na fábrica ou em outros empregos anteriores...
- Sabe, não é justo que a fulana seja convidada para fazer apresentações especiais no Faustão enquanto a gente fica fazendo acrobacia com pinos flamejantes na esquina da Rebouças com a Brasil e disputando trocados com os alejados. NÃO-É-JUS-TO-!
(Já tinha contado para vocês que eu sou circense, certo?)
- Bem, sabe, o mundo não é mesmo justo, tentei explicar.
Ela disse qualquer coisa que queria dizer que ela se recusava a acreditar que o mundo podia ser assim. E eu continuei na dúvida, sobre quem estava sendo niilista e quem estava sendo ingênuo. Depois de alguns milhões após uma hecatombe nuclear, algum ET arqueólogo talvez estude isto e decida, eu mesmo não vou gastar minha vida pensando nisso. Quem está sendo idealista, no entanto, eu acho que sei.
Quando eu trabalhava na fábrica, isto era um problema. Eu chorava, eu me descabelava, eu enfiava a cabeça na privada pra ver se encontrava um mundo belo e florido do outro lado. Aí eu apurava resultados de campanhas de vendas e os resultados diziam que a campanha era um fracasso. "Chefe, sua campanha, é um FRACASSO". Não sei o que eu esperava com isso, talvez que ele fechasse o departamento por descobrirmos que ele não presta pra nada e eu ser mandado embora por não ter mais um departamento para eu trabalhar. Ou talvez fechar a fábrica toda por causa disso, até a matriz na Espanha. E ele respondia: "veja por este lado, veja por este outro, aí olhe este terceiro lado porque é uma campanha de três lados, o terceiro ta escondidinho aqui... faça um novo relatório e um novo Power Point com estes lados porque a nossa campanha é um SUCESSO".
O que mais me emputecia não era ele maquiar os dados para ter algo dito bonito e usar esta coisa dita bonita para puxar o saco do pessoal grande. O que me deixava realmente fodido era que ele agia como quem acreditava nos números que ele mesmo maquiou. Se ele fechasse a porta e sussurrasse que era para a gente mentir e que eu não podia contar isto para ninguém, talvez eu não ficasse tão puto.
Mas, bem, uma das grandes lições da fábrica foi essa mesmo: a de aceitar o sistema. Não achar ruim fazer algo que você não acredite plenamente porque a maioria das pessoas não vai acreditar nas mesmas coisas que você. Então você chega num acordo. Ninguém ganha a vida trabalhando por ideologia. E eu não sou hippie o bastante pra preferir ser pobre e fodido só porque carregar uma bandeira vermelha parece mais importante. Pra mim ela não é tão importante assim e eu juro que não estou falando isso com mágoa.
Sem mágoa porque alguém me explicou uma vez que isso é capitalismo, não pela relação trabalho em troca de dinheiro, existia uma explicação que realmente fazia sentido, só que eu não lembro. Esta parte vocês vão ter que acreditar quando eu digo porque não lembro mais o raciocínio. Só queria chegar à conclusão de que, de um jeito ou de outro, resolvi aceitar o sistema porque o capitalismo é mesmo sedutor. Eu gosto de e quero Coca-Cola, Nike, Nintendo, etc. Não se trata de desilusão, trata-se de vender a alma ao diabo porque ele tem umas coisas bacanas pra oferecer mesmo.
Olá, eu sou o Klein e fisicamente pareço um príncipe
germânico. Blá blá blá. Todo mundo já
está de saco cheio deste papo de príncipe germânico,
vamos ser honestos, mas é a piada besta que acompanha este blog
desde que eu o tenho e é sempre disto que todo mundo lembra. Mas
na verdade esse negócio de príncipe é papo pra bundão.
O único príncipe brasileiro respeitável foi, a meu
ver, o Ronnie Von. Que não parece muito germânico. E também
não se parece muito comigo. De qualquer forma, hoje ele apresenta
um programa para donas de casa que ocupam suas tardes fazendo pirulitos
de chocolate para vender na vizinhança.
Não está nos meus planos apresentar um programa de auditório
para donas de casa. Nem estou renegando uma eventual realeza: só
estou explicando que esta coisa de príncipe germânico não
é necessariamente boa, mas eu não ousaria fazer um perfil
no meu blog que não citasse esta piadinha besta tão tradicional
por aqui. Mas acho que ultimamente estou mais para o outro cabeludo que
vai aparecer na sua rua do que para príncipe germânico.
De qualquer forma, sejam bem vindos ao meu blog. Se você é
o tipo de pessoa que gosta de ler qualquer tralha por aí, então
deu certo porque eu escrevo textos no estilo qualquer tralha. Se você
é o tipo de pessoa que apresenta programas de auditório
para donas de casa ou o tipo de pessoa que vende pirulitos de chocolate
para os vizinhos, saiba que não é nada pessoal. Por fim,
se você for o Ronnie Von, o Eduardo Araújo ou um dos irmãos
da família Carlos, oh, quanta honra vocês por aqui!