Laika, a cadela gente fina

eu sei que a foto é estourada e não está muito boa. a escolha é pelo que ela ilustra.
Não tenho certeza da idade dela. Eu costumava pensar que encontrei ela (portanto, que ela nasceu) aos meus 12 anos de idade, então dizia que ela estava com 18 anos de idade.Mas eu não tenho muita certeza disto. Eu esperava que a qualquer momento eu fosse acordar e dar falta dela e do meu carro na garagem porque é o que as pessoas de 18 anos fazem. Não deu tempo dela fazer isto. Mas o importante é que sei que ela viu o impeachment do Collor e o fusquinha do Itamar. Viu o Brasil ser tetra. Viu eu comprar uma bicicleta no lugar de um baixo, me arrepender e ainda ter a bicicleta roubada. Viu eu aprender a tocar guitarra, viu eu entrar na faculdade e sair dela. Viu eu entrar e sair de depressão. Viu todas as minhas namoradas. A Laika, a cadela gente fina, viu tudo.
A Laika, a cadela gente fina, eu encontrei na rua. Perto da casa em que eu morava na época tinha uma agência do Bradesco com um tipo de jardinzinho na lateral. Foi ali que um dia eu passava na frente e tinha uma mendigaiada esparramada pelas plantas. Azar das plantas, sorte dos mendigos, vocês sabem como funciona a nossa dominação e abuso sobre reino vegetal. E a mendigaiada grita pra mim MENINO! MENINO!. Eu era mesmo um menino, aspirando uma puberdade perturbada como a de todo adolescente, então atendi ao chamado. Eles tinham esta cachorra marrom (ou amarela como a gente preferia dizer) e disseram tê-la encontrado por aí, perguntaram se eu sabia quem era o dono. E eu sabia. Era a Fifi, a cadelinha da vizinha que não gostava de mim porque achava que eu ia fazer sexo com a filha dela porque uns anos antes eu pulava o muro pra brincar de Jaspion com ela (não me condenem: era uma família de japoneses!). Peguei a cadelinha e levei até a casa da vizinha. Quando toquei a campainha, saíram para me atender a vizinha e a Fifi.
Ué, mas a Fifi não está aqui nos meus braços?
Não, o universo não entrou em colapso criando ilógicas de espaço tempo. Quando voltei para devovê-la para a mendigaiada, eles já tinham abandonado a graminha do Bradesco*. E aí foi o clássico: não soube o que fazer, fiquei com dó da cachorrinha, levei ela pra minha casa pra dar comida, minha mãe ficou puta, prometi procurar por donos, procurei porra nenhuma, "mãe, deixa eu ficar com ela?", não, "mãe, deixa eu ficar com ela?" de novo, "ta bom, mas ela dorme fora de casa", eu dormindo no chão para a Laika, a cadela gente fina, dormir na minha cama escondido da minha mãe, eu dormindo no chão para a Laika, a cadela gente fina, dormir na minha cama com o consentimento da minha mãe e, afinal, todos dormindo no chão. Azar dos mendigos, sorte da família Klein, vocês sabem como funciona a dominação e abuso sobre a classe E da sociedade.
A Laika era esse tipo de cachorro sem noção. No sentido da pureza mesmo. Armava estas cenas esquisitas como a da foto e fazia esta cara aí de isso aqui é normal, você que não é, não sei do que você ta rindo. Ou sentar numa escada com a bunda num degrau e as patas da frente no nível do piso. Ou deitar na sua cama toda atravessada de um jeito que você mesmo não caberia nem se esforçasse muito. Vocês entenderam. Mas acho que, de tudo, o que a gente mais gostava da Laika, a cadela gente fina, era o rabo dela. Cada vez que ela balançava o rabinho para os lados, a gente balançava inteiro. Nós já tínhamos outra cachorra, mas ela tinha o rabinho cortado. A Laika era assim, com rabo. Se eu pudesse pensar em alguma coisa para chamar de alegria que contagia, com certeza esta coisa seria o rabinho da Laika.
Eu já tive diversos outros bichos. Antes da Laika, a cadela gente fina, já tive tartaruga, peixinho, gatos e uma outra cadela. Ainda tenho outros no estoque lá em casa. Mas desse pessoal todo, ninguém eu gostei tanto quanto ela. Eu sempre soube que ficaria muito triste quando ela se fosse, mas é o tipo de coisa que a gente nunca sabe o suficiente até acontecer. De vez em quando chego em casa e ainda olho pros cantinhos onde ela costumava ficar mais depois que ficou velhinha. O céu dos cachorros está em festa. Sorte do céu, azar da família Klein, vocês sabem como funcionam os ciclos. E você aí não pode me condenar em pensar num céu de cachorros como uma criança faria: é o meu cachorro de infância, desde os meus 12 anos de idade. A Laika, a cadela gente fina, viu tudo.
* - todo mundo que tem bicho fica com aquela viadagem de dizer "é a minha filhinha". Minha mãe gostava de dizer que ela era a mãe da Laika e que eu era o pai. Eu nunca disse isso, vejam. Mas o meu ponto é que, legal mesmo, era quando a gente dizia que a Laika era filha do Bradesco.